Derramai sobre mim inteira as graças eficazes da vossa chama de amor

- Minha senhora, que Igreja é essa?
- Nossa Senhora da Piedade.
- Sei...
(silêncio)

O motorista mira a Igreja analisando os vitrais, e nada nada absolutamente nada mais. A mulher quer ajudar, quer achar o rumo daqueles olhos:
- Qual é a rua que o senhor quer pegar?

E ele responde, um pouco louco, mas muito centrado, com o domínio de quem sabe exatamente aonde está indo:
- Qualquer uma serve.

um Trecho de Lolita (página 153)

"Tenho de avançar com cautela. Tenho de falar num sussurro.
[....]
Se eu fosse um pintor, se a gerência do Caçadores Encantados tivesse enlouquecido num dia de verão e me contratado para redecorar o salão de jantar com murais de minha própria lavra teria feito alguma coisa na linha dos fragmentos que apresento a seguir:
Pintaria um lago. Pintaria um caramanchão coberto de flores flamejantes. Pintaria escudos de natureza - um tigre perseguindo uma ave-do-paraíso, uma serpente quase sufocada ao engolir um leitão esfolado vivo. Pintaria um sultão, seu rosto exprimindo grande angústia (desmentida, na verdade, por sua carícia envolvente), ajudando uma pequena escrava calipígia a subir numa coluna de ônix. Pintaria esses glóbulos luminosos que brilham como gônadas e sobem pelas paredes opalescentes das vitrolas automáticas de bar. Pintaria todas as atividades do grupo intermediário no acampamento de férias, Canoagem, Cantorias, Confissões à beira do lago. Pintaria choupos, maçãs, um domingo nos subúrbios. Pintaria uma opala de fogo dissolvendo-se numa lagoa, as marolas formando círculos concêntricos, um último espasmo, uma última mancha de cor, vermelho ardente, rosa magoado, um suspiro, uma criança encolhendo-se de dor"

- Nabokov em Lolita. Tradução de Jorio Dauster.

Para Julio Cortazar

"Às vezes é palavra nunca ouvida, que ele mesmo
inventa, de um sentido que eu carregava escondido comigo e não sabia,
porque, misteriosamente, como uma visita que morreu há duzentos anos e
ainda hoje põe a energia para varrer a poeira da casa, nos entendemos."

Trecho de um fragmento que um dia será publicado. Não se sabe em que
suporte, mas todos esperamos pela junção de tudo o que tem sido
guardado, em alguma coisa que preste.

O que sobrou dos corpos celestes

No tempo de um respiro fui levada por um batalhão de anjos, todos vestidos de negro, todos com sangue nos olhos, fendas no corpo de onde saem pequenas lanças maleáveis, todos anunciando não a minha morte, mas um quase indecifrável começo. Do quê? O que seria isso senão um jeito torto de morrer.

Todos os dias sumo um pouco, mas parte de mim encontra a sobra de luz da explosão de uma enorme supernova, um furacão branco e cego. O que me resta é massa de estrela e dor, que debulha lentamente uma água de corpo que não faz barulho, mas cai com o mesmo peso com que saiu do olho.

De repente fecho os olhos e digo de voz sumida: estou no mar. Estou no meio do mar. E os anjos negros se desfazem no vento juvenil e fresco que vem não do Noroeste, mas de algum ponto que não está na Rosa dos Ventos. Então desisto de doer; talvez não haja tempo para este luxo.

Viro o corpo, dou as costas, me desfaço em ar nos pulmões. Do lado de fora da porta, ainda pisando na soleira, olho o baixio da ladeira. Alguma coisa me convida a caminhar.
Aproveito que estou longe de casa.

Passo a primeira rua, no passo veloz que não consigo jamais evitar, e ouço quando alguém cantarola com voz grave:

"Por que choras quando eu canto
Se esse canto é todo teu"

Eis que aparece Victor Hugo

Um bicho que morreu, era o que eu sentia. Nunca entreguei meu amor aos que não temem a morte. Sou incompetente para entendê-los, ou talvez não consiga ser fonte do carinho vão, nem porto da carência imediata dos cães, do ladrar por alguma coisa que eu não sei se posso.

Por isso aquele sofrimento que eu acolhia, tentava evitar, mas não entendia, era só e apenas a morte de um bicho.

Foi quando ela disse, o brilho dos olhos se minusculando, sem coragem: "nunca mais quero conviver com nada que sinta dor e não possa falar".

Guga

- Minha mãe tá fazendo doutorado.
- Sério? Que maravilha!
- Pois é. Ela tem 70 anos, vai a pé pra universidade e tem uma carteira de estudante.
- Que máximo.
- Pois é. Quando voltar, vai morar em Canoa. Aí vai arranjar um italiano bem rico, distinto, legal. Ele vai ter uma filha como a Liv Tyler. Um dia eu vou estar lá, de bobeira, e a campainha vai tocar. Eles vêm retornando da Toscana, o velho e a filha, e vão bater a porta. Eu abro e grito pra minha mãe: Mãe, seu namorado chegou. E trouxe junto minha namorada.
- Tudo isso tu inventou agora?
- Foi.
- Meu Deus. O que seria de nós sem a fantasia interna.
- Morreríamos, Baby.

Edwin Morgan

MORANGOS

Nunca houve morangos
Como os que tivemos
Naquela tarde tórrida 
Sentados nos degraus
Da porta-janela aberta 
de frente um para o outro
seus joelhos encostados nos meus
os pratos azuis em nossos colos 
os morangos brilhando
na luz quente do sol
nós os mergulhamos em acúçar
olhando um para o outro 
sem apressar a festa 
para outra por vir 
os pratos vazios 
deitados sobre a pedra juntos 
com os dois garfos cruzados
e me aproximei de você
dócil naquele ar
nos meus braços
abandonado como uma criança
da sua boca ávida
o gosto de morangos
na minha memória
inclina-se de volta 
deixe-me amá-lo

deixe o sol bater
sobre o nosso esquecimento
uma hora de tudo
o calor intenso
e o relampâgo de verão
nas colinas de Kilpatrick

deixe a tempestade lavar os pratos

(Tradução: Virna Teixeira)