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Este estacionamento é uma cortesia do senhor teu deus para ti, meu filho, e para o teu amor doente - e trôpego
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neide caminha depois do expediente. short jeans, blusa rosa ou vermelha, um colar combinando com brinco que comprou do galego, o galego empurrando aquele enorme carro vendendo penico, brinco, bíblia, banco, peso de porta, filtro de plástico e prazo, trinta, sessenta, noventa, cento e vinte, cento e cinqüenta, ele grita, pegando carona no anúncio famoso da tevê. nada acontece a neide desde que, pela última vez, procurou o pastor da igreja triangular. pastor, preciso falar com o senhor. e o pastor de imediato disse neide, eu sei que você anda muito reflexiva, pensando sobre a existência de deus, mas isso é errado e isso afasta você da figura divina, minha irmã, isso impede você de construir seu lugar no paraíso, isso aproxima a sua imagem da imagem do tranca rua, então eu lhe peço que reflita em deus, que deposite sua fé e seus dez por cento, que o que deus está fazendo por você, minha irmã, é garantindo sua vida eterna, e sua presença aqui na igreja triangular do sétimo dia da graça de deus (e começou a gritar com a mão na cabeça dela) é promessa de salvação. renegue a questão (e gritou ainda mais) em nome de jesus. aleluia? e ela respondeu: aleluia.
mas neide caminha depois do expediente, e hoje como não tem igreja ficou contando quantos policiais enxergava no calçadão, quantos homens de patins, quantas crianças de bicicleta. contou 32 policiais, 24 homens de patins (misturou mulheres, se não se confundiria) e perdeu as contas das crianças de bicicleta quando de repente apareceu na sua frente GALDENCIO A+. sangue ordinário, fator rh positivo, farda azul engomada. mudou de direção, seguiu GALDENCIO A+ e já imaginava se afastando de uma vez por todas da promessa de salvação, aproximando sua figura do portal do mal e dos braços do capiroto, porque deus jamais aprovaria um homem como aquele, pecador a partir do dia em que nasceu, só pela delícia da pele morena. aleluia? neide pensava na pergunta do pastor, até que GALDENCIO A+ olhou profundamente dentro do decote da blusa de neide. depois disso foram dias e dias de muito calor e um pouco de culpa cristã, que a igreja triangular do sétimo dia da graça de deus tinha herdado do pouco que o bispo sabia sobre o judaísmo. até o dia em que a neide descobriu que o GALDENCIO A+ era pai de cinco filhos de uma morena belíssima, lustrosa, a carne dura, pouco peito, muita cintura, e desistiu pela eternidade se afastar de qualquer homem de farda.
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e beija-me,
como se eu fosse um homem livre
como um gesto primitivo
do amor humano / animal, substantivo
do amor humano / moreno, brasileiro.
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o veludo escuro dentro da caixa era um vão. todas as facas, espátula de bolo, a colher do açúcar em forma de flor. tudo tinha sumido. no centro da arca do faqueiro, apenas uma chave que devia ter pelo menos 20 anos, escura, bronzeada, torneada na ponta por alguma curva que parecia um coração, uma onda quebrada na beira, uma letra m. tomei. fui entendendo aos poucos. por um tempo que não sei medir, senti uma plenitude, como se o mundo e eu fôssemos do mesmo tamanho, como se só houvesse oxigênio vaso dilatação uma enorme baía, um nada, vento, eu criança correndo correndo um terraço, a sombra deficiente de uma planta enorme e longilínea de que não se sabe o nome: algaroba. se antes da morte for me dada a graça o sabor de sentir o que é vida em um enésimo de segundo, vou pensar na arca do faqueiro vazia em cima da mesa. a colher do açúcar em flor, a espátula de bolo, não há nada, tudo se resume ao veludo escuro bem cuidado reluzente que se abre na mesa de vidro e a chave. penso no que é morar. como é estar sentada em um sofá pardo, provisório, coberto com uma colcha que herdei de uma tia que não tinha filhos, o chão limpo, a cabeça tranqüila, e a porta abrir, com uma força, uma potência de propriedade e pertinência. a porta abrir e eu, com um abajour, um livro e pequenos pertences para o momento entre o ócio e o amor, dizer algumas palavras roubadas, conversar de novo as mesmas coisas que temos repetido durante todos esses anos. e você liga a televisão no esporte: está frio e se fica ainda mais bonito de mangas compridas. eu me derramo em roupas pretas de casa (cheiro de amaciante azul) numa ponta do chão de ardósia, as omoplatas apoiadas na parede de tijolos vermelhos da sala. apenas um retrato recém-emoldurado se pendura na cor da casa nova, um retrato que você me prega como um bilhete boas vindas - a casa é sua: meu cabelo penteado para o lado, meu sorriso falho, uma letra infantil que dizia meu nome completo, quase num desenho sem sentido. olho para você de frente, com força e um tanto de temor: somos de algum modo uma coisa só.
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tirei da zunái (www.revistazunai.com) este poema do ruy vasconcelos, que também está na antologia alguna poesía de fortaleza, organizada por diego vinhas. a antologia chegou às minhas mãos em uma tarde bonita de 2009 que vai embora correndo. parece dizer: tem acontecido alguma coisa na sua cidade (ou seria com ela?). preste atenção.
em teu nome
há um mar
e uma bossa nova
um jaguar
um césar
uma roda d’água
um adro de igreja
pétala de jasmim
um dente de alho bem dourado
e a enamorada de teseu
uma casa em messejana
em teu nome roubado
e toscano
frágil e nuvem no centro
auro e prumo nos flancos
há uma seita herética
um relógio de sol
um odor de lavanda
uma muralha em inglaterra
o ato de içar bandeiras
uma graciosa cabala
um atril
em teu nome
de vogal há bromélia
e adstringente entropia
mercearia em mariana
letra à giz sobre lousa verde
uma alergia, um parque
um coreto limado de sol
e sombras devolutas
num pátio de gaudí
e bredos-da-praia, e copa de aluá
canoa em camocim
afora uma caligrafia
de ponta à cabeça
a meio gasto
e nessa caligrafia
giro de ciranda
está escrito
letra à giz sobre lousa verde
o teu outro nome
está escrito
o teu nome de guerra
que era
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O amor comeu minhas roupas, meus lenços, minhas camisas. O amor comeu metros e metros de gravatas. O amor comeu a medida de meus ternos, o número de meus sapatos, o tamanho de meus chapéus. O amor comeu minha altura, meu peso, a cor de meus olhos e de meus cabelos.
O amor comeu meus remédios, minhas receitas médicas, minhas dietas. Comeu minhas aspirinas, minhas ondas-curtas, meus raios-X. Comeu meus testes mentais, meus exames de urina.
O amor comeu na estante todos os meus livros de poesia. Comeu em meus livros de prosa as citações em verso. Comeu no dicionário as palavras que poderiam se juntar em versos.
Faminto, o amor devorou os utensílios de meu uso: pente, navalha, escovas, tesouras de unhas, canivete. Faminto ainda, o amor devorou o uso de meus utensílios: meus banhos frios, a ópera cantada no banheiro, o aquecedor de água de fogo morto mas que parecia uma usina.
O amor comeu as frutas postas sobre a mesa. Bebeu a água dos copos e das quartinhas. Comeu o pão de propósito escondido. Bebeu as lágrimas dos olhos que, ninguém o sabia, estavam cheios de água.
O amor voltou para comer os papéis onde irrefletidamente eu tornara a escrever meu nome.
O amor roeu minha infância, de dedos sujos de tinta, cabelo caindo nos olhos, botinas nunca engraxadas. O amor roeu o menino esquivo, sempre nos cantos, e que riscava os livros, mordia o lápis, andava na rua chutando pedras. Roeu as conversas, junto à bomba de gasolina do largo, com os primos que tudo sabiam sobre passarinhos, sobre uma mulher, sobre marcas de automóvel.
O amor comeu meu Estado e minha cidade. Drenou a água morta dos mangues, aboliu a maré. Comeu os mangues crespos e de folhas duras, comeu o verde ácido das plantas de cana cobrindo os morros regulares, cortados pelas barreiras vermelhas, pelo trenzinho preto, pelas chaminés. Comeu o cheiro de cana cortada e o cheiro de maresia. Comeu até essas coisas de que eu desesperava por não saber falar delas em verso.
O amor comeu até os dias ainda não anunciados nas folhinhas. Comeu os minutos de adiantamento de meu relógio, os anos que as linhas de minha mão asseguravam. Comeu o futuro grande atleta, o futuro grande poeta. Comeu as futuras viagens em volta da terra, as futuras estantes em volta da sala.
O amor comeu minha paz e minha guerra. Meu dia e minha noite. Meu inverno e meu verão. Comeu meu silêncio, minha dor de cabeça, meu medo da morte."
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